Barbizon & patrimoine

Guia completo de Barbizon: o vilarejo que inventou o impressionismo

Lila6 min
Guia completo de Barbizon: o vilarejo que inventou o impressionismo

Um vilarejo entre Seine e floresta

A sessenta quilômetros a sudeste de Paris, encravado contra a borda da floresta de Fontainebleau, Barbizon cabe em uma única rua — a Grande Rue, uma nave pavimentada com um quilômetro de comprimento, ladeada por estalagens, ateliês e casarões cobertos de telhas envelhecidas. Antes de 1830, ninguém ainda escrevia seu nome. O vilarejo contava cerca de trezentas almas, algumas vacas, um forno de pão e uma clareira que os camponeses chamavam de "Bas-Bréau". Depois a pintura chegou.

O que narramos aqui — desde a galeria instalada no 61 da Grande Rue, a poucos passos da estalagem Ganne, onde tudo começou — não é uma simples cronologia. É a história de uma virada: a de uma geração de artistas que optou por sair do atelier, abandonar as academias e ir pintar diante da natureza. Essa decisão, tomada sob os carvalhos de Barbizon, preparou tudo aquilo que viria a seguir: o impressionismo, o pós-impressionismo e, de certa forma, a arte moderna em sua totalidade.

A estalagem Ganne, 1830: o nascimento de uma escola sem escola

Em 1824, o estalajadeiro François Ganne aluga um cômodo a um pintor parisiense vindo fazer estudos de paisagem. Seis anos depois, sua casa tornou-se o quartel-general de uma colônia artística que tinha por único manifesto uma ordem simples, quase ingênua:

"É preciso pintar o que se vê, não o que se pensa saber."

Essa frase é geralmente atribuída a Théodore Rousseau — um dos primeiros a se estabelecer permanentemente, em 1848, em uma pequena casa da Grande Rue. Em torno dele logo gravitavam Jean-François Millet, Charles-François Daubigny, Narcisse Diaz de la Peña, Constant Troyon, Jules Dupré. Não eram alunos de um mesmo mestre. Não eram membros de um movimento proclamado. O que compartilhavam era uma obstinação: recusar os assuntos nobres, abandonar a mitologia, deixar de pintar Roma quando se tinha a floresta de Fontainebleau sob os pés.

Millet e a dignidade do camponês

Jean-François Millet se estabelece em Barbizon em 1849, com sua esposa, seus filhos e quase nada. Procurava aluguel modesto e luz franca. Ambos se encontram aqui. Durante vinte e cinco anos, até sua morte em 1875, vai pintar os gestos mais humildes do mundo rural: L'Angélus, Les Glaneuses, Le Semeur. Telas que os críticos parisienses julgam "socialistas" — no sentido acusatório do termo — antes que se tornem, meio século depois, ícones universais.

"A beleza não está no que se representa, mas na necessidade que se tinha de representá-lo." — Jean-François Millet

Sua casa-atelier, ainda de pé na Grande Rue, é hoje um museu. Pode-se ainda ver ali, na parede, o relógio para o qual ele olhava durante as noites de insônia.

Rousseau e a floresta como catedral

Théodore Rousseau, por sua vez, só se interessa por árvores. Passa dias inteiros, caderno em mão, procurando o carvalho que concentrará toda a floresta. Pinta os sub-bosques como outros pintam retratos — com escrupulosidade quase religiosa por cada ramo, cada mancha de luz que atravessa a folhagem. Foi ele quem, em 1852, consegue que a floresta de Fontainebleau seja classificada como "série artística" — primeira medida de proteção paisagística da história francesa. Pode-se dizer, sem exagero, que inventou a ideia moderna de patrimônio natural.

A borda da floresta de Fontainebleau ao crepúsculo — trilha das Gorges d'Apremont

Corot, o viajante silencioso

Jean-Baptiste Camille Corot nunca habitou Barbizon permanentemente. Mas passava por lá regularmente, sempre sozinho, sempre a pé. Deixava ali estudos a lápis, pequenas telas claras, prateadas, onde se reconhece sua maneira: folhagens desfocadas como vistas através de uma bruma de calor, lagoas que parecem espelhos abandonados. Os jovens pintores vinham consultá-lo como se consulta um oráculo.

"Não sigam ninguém. Não segui ninguém, e vejam aonde isso me levou: a lugar algum em particular, o que talvez seja o melhor." — Camille Corot

O "motivo": pintar ao ar livre, uma revolução invisível

Hoje é difícil medir o quanto isso era transgressor. Antes de Barbizon, um pintor de paisagem trabalhava a partir de esboços levados ao atelier. Compunha, arranjava, idealizava. A natureza era apenas matéria-prima que se recompunha em Paris sob uma luz do Norte.

Os pintores de Barbizon fizeram outra coisa. Carregaram seus cavaletes para a clareira. Pintaram no local, diante da paisagem, aceitando que a luz mudasse, que a chuva interrompesse, que um melro atravessasse o campo de visão. Aceitaram o acaso como método. Essa decisão — pintar sobre o motivo, diziam — mudou tudo.

O que se transmite ao impressionismo

Vinte anos depois, quando Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir ou Alfred Sisley vêm se estabelecer nas cercanias de Paris para pintar ao ar livre, caminham nas pegadas traçadas em Barbizon. Sem os carvalhos de Fontainebleau, sem Nymphéas em Giverny. Sem Millet, sem os camponeses de Van Gogh. Sem Rousseau, sem Cézanne diante de Sainte-Victoire. É uma filiação direta e frequentemente reivindicada: Monet dirá de Daubigny que foi "um dos primeiros que compreenderam que era preciso pintar o que se via". Van Gogh copiará Millet como se copia um salmo.

Hoje: por que Barbizon permanece um lugar de criação

O vilarejo não se tornou um museu congelado. As estalagens estão ainda lá — a Estalagem Ganne, transformada em museu departamental, recebe a cada ano perto de cinquenta mil visitantes. As casas-ateliês de Millet e Rousseau podem ser visitadas. Mas sobretudo, Barbizon continua atraindo artistas. Pintores, escultores, fotógrafos, às vezes vindos de muito longe — Japão, Estados Unidos, Coreia, Países Baixos — se estabelecem ali por algumas semanas ou pela vida toda.

É esse fio que procuramos continuar, na Galeria Roz In Winter, desde 2014. Nossa programação mensal reúne cerca de vinte artistas contemporâneos — muitos deles apegados à luz, à paisagem, ao gesto lento. Alguns não se sentiriam deslocados à mesa de Ganne; outros trabalham com pixels, placas de zinco, têxteis. Todos compartilham, à sua maneira, a mesma aposta de Rousseau e Millet: pintar o que realmente se vê.

Ver Barbizon de outro modo: três tempos de uma visita

  1. A Grande Rue, no amanhecer. Partir do número 61, subir até a casa-atelier de Millet. Contar os ateliês ainda em atividade: há mais do que se pensa.
  2. A trilha das Gorges d'Apremont. Uma hora de caminhada na floresta, até as rochas que Rousseau e Diaz pintaram. A luz de inverno, sob o carvalho Júpiter, é exatamente a das telas de 1852.
  3. A galeria, fim da tarde. Ver como os artistas de hoje — pintura, escultura, jóias, fotografia — dialogam com esse legado. Certas obras de nosso catálogo, sinalizadas no percurso, evocam diretamente Barbizon, a floresta, a luz da Île-de-France.

Para aprofundar

O Musée départemental de l'École de Barbizon (Estalagem Ganne, 92 Grande Rue) conserva a mais bela coleção de obras e objetos ligados à colônia: paletas, cartas, caricaturas gravadas pelos próprios pintores nas paredes dos quartos. Está aberto de quarta a domingo, entrada gratuita no primeiro domingo do mês.

A casa-atelier Théodore Rousseau, reaberta após uma campanha de restauração em 2023, mostra o atelier em seu estado original. Compreende-se ali, melhor que em qualquer livro, o que significava, no século XIX, viver de sua pintura.

E se você tem apenas duas horas para passar em Barbizon, passe-as aqui: desça até o 61, empurre a porta da galeria. Contar-lhe-emos, diante das obras, a continuação da história — aquela que continua se escrevendo, neste momento mesmo, nos ateliês do vilarejo.